Deveríamos ter uma Inteligência Artificial como Presidente?


27 set 2017

E se os próximos chefes de estado fossem Inteligências Artificiais? Parece uma ideia extrema e fora de alcance, mas, um grupo criou uma campanha pedindo que o Watson, o computador cognitivo da IBM, se candidatasse à presidência dos Estados Unidos em 2016.

Crises políticas são a tônica do mundo atual. Seja no Brasil ou em outros cantos do mundo, existe um sentimento evidente de descolamento entre a classe política e o povo que supostamente deveria ser representado por esses. Definitivamente, não estamos no melhor momento para as democracias.

Os efeitos desse descolamento são vistos por aí:

(1) presidentes completamente despreparados para exercerem o cargo;

(2) líderes com taxas de aprovação mínimas;

(3) pautas de interesse da população sendo deixadas de lado em favor dos interesses de grupos pequenos e melhor articulados;

(4) discursos populistas, pouco factíveis, ecoando entre a população.

Estamos vendo o uso da Inteligência Artificial (IA ou AI) se expandindo para atacar diversos problemas: diagnóstico de doenças, suporte a advogados e carros autônomos para ficar em algumas aplicações.

Então, por que não considerar o uso da AI para resolver os problemas relacionados aos governos e os serviços que prestam à população?

Pensando de modo mais superficial, uma Inteligência Artificial teria a capacidade de processar o volume de informações e as diversas variáveis envolvidas nas tomadas de decisão que fazem parte do trabalho de chefes de estado. E, mesmo em níveis mais próximos do cidadão, a Inteligência Artificial poderia trazer insights em cima de dados disponíveis e trazer ações para solucionar os problemas do dia a dia da população.

Além disso, o processo de implementação de uma máquina chefe de estado poderia trazer progressos interessantes. Imagine que para saber os interesses da população seja necessário investir em interfaces para que a população possa enviar suas proposições e opiniões, em outras palavras, envie inputs para a máquina.

Isso traria alguns benefícios: poderia tornar a representatividade da população por parte da classe política mais eficiente – o modelo de democracia representativa que temos hoje demonstra claros sinais de desgaste: em um mundo hiper conectado e diverso é uma tarefa bem árdua para uma única pessoa representar os interesses de um eleitorado de centenas de milhares ou milhões de pessoas.

Também poderia ser um incentivo determinante para acelerar o processo de digitalização do poder público para que as pessoas tivessem mais facilidade de enviar seus inputs para o governo.

Um governo que permitisse à sua população enviar inputs de maneira direta poderia um outro efeito interessante: dar aos cidadãos a percepção de que democracia vai além do exercício do voto que é feito pontualmente.

O futurista e estrategista global Parag Khanna diz que seu sistema político ideal seria algo que o próprio define como Tecnocracia Direta: combinar a democracia direta da Suíça, onde a população dita a agenda do país através de frequentes plebiscitos, com a Tecnocracia de Cingapura, onde o serviço público busca constantemente mais eficiência.

Podemos imaginar as aplicações disso no Brasil. Uma Inteligência Artificial poderia nos ajudar a elaborar da melhor maneira possível as reformas que têm sido postas em pauta nos últimos tempos, além de aproximar o cidadão do poder público.

Em tempos onde a vida, sobretudo nas cidades, é cada vez mais individualizada e menos comunitária, colocar o governo à disposição do cidadão com acesso pelos smartphones pode ser um passo importante. Entretanto, considerando as desigualdades que temos, isso poderia também agravar o problema de como algumas pessoas terão mais acesso do que outras ao governo (o que já acontece hoje).

Certamente que a Inteligência Artificial tem seus problemas. Um dos mais evidentes deles é o viés que muitas vezes aparece em algoritmos. No que podemos argumentar que os vieses vistos em máquinas não vem de outro lugar que não os inputs enviesados dos próprios humanos, que também chefiam estados. Além do mais, a Inteligência Artificial pode representar uma das mais eficientes formas de jogarmos luz sobre os nossos próprios vieses.

A hipótese de sermos governados por máquinas parece assustadora em um primeiro momento. E o campo da Inteligência Artificial ainda está desenvolvendo enquanto exploramos as suas possibilidades. Mas, em um momento onde as estruturas políticas têm dificuldades em atender as necessidades da população, precisamos pensar no papel da tecnologia para criar estruturas que funcionem melhor para suas finalidades. E a Inteligência Artificial pode ser uma aliada na construção de governos mais atentos às necessidades da população e realmente capazes de resolver problemas.

Imagem da capa: © iStock/Satori13

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Eduardo Azeredo
Eduardo Azeredo

Consultor de negócios, gestor de projetos e pesquisador formado em Relações Internacionais. Procura entender o que há de desejável na próxima esquina do futuro para que seja acelerado e o que há de indesejável para criticar com ironia.

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