Como um smartphone pode detectar a anemia


14 set 2016

O smartphone irá se transformar em um equipamento médico indispensável, principalmente nos países pobres em que os cuidados com a saúde, infelizmente, são precários.

A mais recente evidência dessa transformação está prestes a ser apresentada: uma nova maneira de detectar a anemia de forma não invasiva, sem a necessidade de usar equipamentos caros ou da pessoa ter que ir a um laboratório para fazer o exame.

Essa nova técnica utiliza apenas um smartphone e uma fonte de luz, e está sendo desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Washington, que deram o nome de HemaApp ao aplicativo.

A pessoa precisa apenas colocar a ponta do dedo sobre a câmera do dispositivo e o LED será ativado para iluminar o dedo e, assim, permitir que o app capture imagens para uma análise quase instantânea.

A tecnologia foi desenvolvida no laboratório de Shwetak Patel, líder do projeto e professor em ciências da computação e engenharia dessa universidade.

hemaapp-anemia

O Hema App mede os níveis de hemoglobina de forma não-invasiva, apenas iluminando o dedo do paciente com a câmera de um smartphone. (Crédito: Dennis Wise / Universidade de Washington)

O acesso à saúde

A anemia – condição na qual a quantidade de hemoglobina no sangue está abaixo do normal – é causada principalmente pela desnutrição e é extremamente comum em países pobres.

A Organização Mundial de Saúde estima que há dois bilhões de pessoas anêmicas no mundo. O HemaApp poderá ser uma alternativa viável em lugares que não têm acesso à realização de exames.

[O aplicativo] seria útil em muitos lugares onde há alta penetração de smartphones e muitas pessoas anêmicas, como na Índia; agentes comunitários de saúde poderiam usá-lo em lugares com pouca penetração, em áreas rurais, onde a anemia afeta muitas pessoas, como a África Ocidental.” – Caroline Buckee, professora assistente e epidemiologista de Harvard.

O novo app também tem potencial para diminuir a frequência de coleta de sangue de pessoas que precisam realizar exames regularmente, como pacientes em tratamento para leucemia ou que passaram por um transplante de órgão.

shwetak-patel

Shwetak Patel, chief do Global Innovation Exchange (GIX). Crédito: Matt Hagen/Universidade de Washington

 

Vislumbrando as dificuldade de acesso á saúde e possíveis soluções, Patel está explorando formas para tornar alguns testes simples mais acessíveis com o uso do smartphone e de seus sensores.

Ele desenvolveu outro aplicativo que usa o microfone do dispositivo para controlar a respiração de uma pessoa enquanto ela dorme. Também criou outro que pode detectar a icterícia em um recém-nascido usando a câmera de um smartphone e um cartão de referência com código de cores. Todos os seus sistemas dependem de algoritmos de aprendizado de máquina para reconhecer os sintomas a partir das leituras do sensor.

No caso do HemaApp, Patel e os seus colegas constataram que a câmera de um smartphone Nexus 5 poderia medir a hemoglobina através da captura da luz que passa através do dedo de uma pessoa.  O sistema foi treinado para reconhecer alterações na cor do sangue do dedo, indicando que pode haver uma deficiência de células vermelhas.

Em resumo, o que o HemaApp faz é analisar a cor das imagens capturadas com a câmera do smartphone para dar uma estimativa dos níveis de hemoglobina, o que permite ao médico identificar um quadro de anemia.

A precisão do teste

Em 31 testes realizados em colaboração com o Hospital Infantil de Seattle, eles viram que o novo sistema funcionou tão bem quanto o Masimo Pronto, outro medidor de hemoglobina não invasivo, aprovado pelo FDA. Porém, não foi tão preciso quanto um teste de sangue convencional.

O índice de precisão do aplicativo na medição da hemoglobina ficou em 69% quando somente o smartphone (Nexus 5) foi usado. O índice alcançou 74% com o uso complementar de uma lâmpada incandescente e 82% com a conexão de um conjunto de LEDs ao aparelho. Para efeitos comparativos, o Masimo Pronto alcança 81%.

Esses índices podem variar de acordo com a capacidade técnica de cada modelo. A cor da pele também pode influenciar nos resultados, embora os pesquisadores já estejam trabalhando em algoritmos que consigam distinguir as características físicas das propriedades do sangue.

O que os especialistas pensam

Ulrich Timm, professor na Universidade de Rostock, na Alemanha, que estudou o uso de sistemas de detecção baseadas em LED para rastreamento de hemoglobina, diz que essa tecnologia seria muito útil para os centros de doação de sangue ou home cares. As mulheres grávidas também poderiam monitorar com mais facilidade o níveis de hemoglobina. No entanto, Timm questiona o grau de precisão, dada a resolução espectral da maioria das câmeras dos smartphones.

caroline-buckeeCaroline Buckee, professora assistente e epidemiologista de Harvard que estuda maneiras dos dispositivos móveis serem utilizados na saúde, diz que o sistema parece promissor, mas adverte que nem sempre é simples implantar e dimensionar uma solução assim. E ela concorda com Timm: a precisão seria uma preocupação chave.

Preenchendo lacunas

Pelo fato do HemoApp não ser 100% preciso, os exames convencionais deveriam continuar sendo realizados, pelo menos nos casos mais sérios. Mas, sem dúvida, esse aplicativo pode reduzir custos operacionais, dar comodidade aos pacientes e auxiliar o trabalho dos médicos ao oferecerem resultados rápidos.

Para Patel, o intuito do HemaApp e de outros apps médicos não é substituir os laboratórios, mas preencher lacunas.

Deixe seus comentários abaixo


Redação O Futuro das Coisas
Redação O Futuro das Coisas

O Futuro das Coisas é dedicado a trazer conteúdo exclusivo em inovação, tecnologia, educação e medicina numa linguagem divertida e acessível.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest

Share This