Big Data: que rastros você está deixando?


25 maio 2016

Revolução 4.0, Internet das Coisas, cloud computing, Big Data. Essas são apenas algumas das tecnologias que já fazem parte do cotidiano de muitas empresas de tecnologia e que têm chegado ao consumidor comum, revolucionado a forma como lidamos com diversos aspectos da vida.

Com essas tecnologias, vêm algumas reflexões. Você sabe quais informações as empresas de tecnologia têm sobre você?

Com certeza o Google sabe mais da sua vida do que você mesmo.

Considerando todas essas questões, começamos a nos perguntar:

“Como posso garantir que minhas informações não estão sendo usadas indevidamente?”

Entendendo Big Data e Internet Das Coisas

O documentário “The Human Face of Big Data”, da emissora americana PBS (disponível no YouTube apenas em inglês) explora esse assunto de uma maneira bem clara e explicativa.

The Human Face of Big Data

Após a estréia do documentário “The Human Face of Big Data”, em 09 de fevereiro deste ano, no teatro Montgomery em San Jose, houve um painel de discussão com luminares do Big Data: Vint Cerf – um dos fundadores da Internet; Linda Avey – co-fundadora do primeiro serviço de genética pessoal do mundo, a 23andMe; Quentin Clark – diretor de negócios e membro do Conselho de administração da SAP; Sandy Smolan – diretor do filme; Rick Smolan – produtor executivo do filme; Michael Malone –  moderador e que escreve sobre tecnologia, com duas indicações ao prêmio Pulitzer. (Crédito da imagem: SAP)

 

Enquanto o Big Data – esse compilado gigante de informações geradas pelas pessoas conectadas – pode gerar ótimos resultados, há também um lado obscuro sobre como esses dados podem ser usados, legalmente ou não.

No futuro, a imensa quantidade de informações já existentes nas mídias sociais, e-commerce, PCs e celulares se juntarão às coisas conectadas à internet como nossos carros, casas e informações médicas. É a chegada da Internet das Coisas (IoT) na vida do consumidor comum.

A Gartner, uma das maiores empresas de consultoria do mundo, prevê que em 2020 teremos de 25 a 30 bilhões de dispositivos conectados à internet, em um mercado que movimentará US$ 300 bilhões.

Até 2020, haverá na internet uma quantidade de informações equivalente a 40 zettabytes. Sabe quanto é isso? Imagine todos os grãos de areia do planeta e multiplique esse número por 75. Ou visualize o número 40 com 21 zeros à frente. Pois é, é muita informação que estamos gerando!

Quantidade global de informação digital

Quantidade global de dados digitais baseado na International Data Corporation (IDC) Digital Universe Study, sponsored by EMC, Dezembro 2012. Fonte: DataCenter Journal.

 

Toda essa quantidade de informação é muito valiosa e constantemente falhamos em reconhecer esse valor.

O Facebook é teoricamente uma ferramenta gratuita, mas na verdade a troca é: podemos usar a rede social e, em contrapartida, dizemos a eles (conscientemente ou não) tudo que acontece em nossa vida, todos os nossos desejos, opiniões, aspirações e inseguranças.

Toda essa informação de navegação é analisada, tanto pelo Facebook quanto por empresas parceiras e utilizada para fins de marketing e até acadêmicos. E consentimos com isso ao assinar os Termos de Privacidade do site. Agora imagine essa situação aplicada ao que você faz em sua casa, o que você come, aonde vai e com quem vai? São essas informações que as “coisas” conectadas à internet vão receber.

A Privacidade na Internet das Coisas é o conceito que abrange todas as considerações especiais requeridas para proteger as informações dos indivíduos de serem expostas no ambiente de IoT, onde praticamente todo objeto pode ter uma identificação única e a habilidade de se comunicar autonomamente em redes similares conectadas.

Pegada Digital

É praticamente impossível ser anônimo na Internet hoje em dia. Absolutamente tudo que fazemos deixa rastros digitais.

O mundo de Big Data tem um retrato assustador sendo gravado sobre nós. O mundo todo está sendo registrado em tempo real, e quanto menos você sabe sobre o uso dessas informações, menos poder você tem.

INTERNET DAS COISAS 1

Foto: Catherine Balet’s “Strangers in the Light,” (Steidl) 2012, de The Human Face of Big Data.

 

O Big Data começou quando Copérnico começou a descobrir o espaço, quando surgiu a Astronomia, com o estudo dos seres microscópicos, com a descoberta da elétrica.

O conceito corresponde à tangibilização de uma série de informações que, jogadas ao vento, visualizadas apenas como algoritmos, não têm valor real, mas que compiladas e analisadas se tornam uma verdadeira mina de ouro. Tudo é quantificável, mas nenhuma informação é valiosa sem interpretação.

Com relação às informações, “nosso Big Data” começou a ser gerado quando surgiram as buscas na Internet. A cada busca que você faz no Google, você fornece informações valiosas sobre quem é você, o que quer e quais são seus interesses. É assim que, por exemplo, governos têm descoberto sobre epidemias antes dos dados oficiais, e agido preventivamente nos focos.

Toda violação ao direito do outro é uma violação ao seu direito

Em Março deste ano, a polícia brasileira prendeu, por um dia, o Vice-Presidente do Facebook para a América Latina por questões de privacidade do usuário na rede social.

Um caso mais recente envolveu o bloqueio por 72 horas do aplicativo de mensagens WhatsApp.

Esses casos fazem parte do que deve ser uma longa batalha entre empresas de tecnologia e a justiça brasileira. E, essas situações também demonstram como a justiça ainda está aprendendo a lidar com a privacidade dos usuários na internet.

Uma vez que o bloqueio do serviço para os milhares de usuários não prejudica apenas a empresa, mas toda a sociedade, essa questão deve ser compreendida e aplicada à realidade o quanto antes.

privacidade

Imagem cortesia: LoyensLoeff News

 

O Marco Civil da Internet, regulamentado no último dia 11 de maio, busca a normatização dessa área ainda inexplorada pelo sistema judiciário brasileiro. A lei dita que as operadoras e provedoras de internet devem guardar apenas os dados de conexão entre os usuários, não o conteúdo pessoal de cada conversa – e era justamente isso que a justiça estava solicitando ao WhatsApp.

Ainda não é muito comum a reflexão sobre a privacidade e o controle sobre os dados pessoais, a não ser quando surgem decisões judiciais que mexem diretamente com nossas vidas, como o bloqueio de serviços ou a divulgação de notícias sobre escândalos como o WikiLeaks.

A Apple, em um dos últimos episódios envolvendo essa questão, justificou a não liberação dos dados de uma maneira coerente. Eles disseram que liberar as informações de um usuário para investigação judicial abriria um “precedente perigoso”,  uma vez que abrir o código pra um aparelho é o mesmo que fazer isso para todos os outros, colocando em risco a privacidade de todos os usuários.

Big Data para o bem

Mas, nem tudo é obscuro. O Big Data pode trazer ótimos resultados para as pessoas, pois essa grande quantidade de informações, quando bem analisada, traz importantes insights para áreas como a saúde, cultura e segurança pública.

Na medicina, o uso do Big Data pode salvar vidas. Por exemplo, nos monitores de bebês prematuros há uma série de informações e medições que, se avaliadas e interpretadas corretamente por programas específicos, podem antever infecções e outros problemas de saúde antes que o bebê apresente sintomas. Assim, o médico pode identificar padrões e tendências, possibilitando a realização de tratamento preventivo.

Big Data 1

Imagine um mundo onde o genoma de cada pessoa seja sequenciado e armazenado junto com seus registros médicos. Isso ajudaria a encontrar terapias e tratamentos direcionados para o perfil genético do paciente. A imagem acima mostra a visão da SAP para a sua plataforma SAP HANA de cuidados médicos com Big Data (Crédito: SAP HANA)

 

Outra aplicabilidade médica é na Genética, com o mapeamento do genoma. Essa tecnologia é capaz de mapear todo o sistema do paciente, identificando tendências de adquirir doenças, assim como personalizar tratamentos. Quando essa técnica estiver ainda mais popular, aumentará a expectativa de vida da população, que será capaz de fazer tratamentos preventivos e não somente posteriores aos sintomas.

Big Data e Cultura

Essa imensa quantidade de informação, quando analisada, ajuda até mesmo a identificar mudanças de padrões culturais e auxilia os governos a realizar planejamentos com base nessas tendências e parâmetros.

Nós estamos construindo um Cérebro Global, com novas funções e a sensação de que sempre terá alguém te ouvindo, te observando, sabendo tudo sobre você.

As cidades inteligentes são um exemplo interessante disso: por meio do uso da tecnologia, os órgãos governamentais são capazes de identificar padrões de comportamento na cidade e, assim, melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Tornam-se, assim, cidades responsivas.

Outro exemplo interessante é a aplicabilidade desses dados para a segurança pública. No documentário previamente citado, The Human Face of Big Data, é apresentado um estudo feito em Boston (EUA) sobre o sistema prisional e a correlação dos prisioneiros com questões sociais.

Essa análise de dados mostrou que grande parte das pessoas encarceradas vinha de bairros extremamente pobres. Assim, a cidade poderia criar políticas que visassem à equalização dos investimentos nessas regiões, aumentando a qualidade de vida daquela população, e corrigindo o que anos de criminalização e marginalização causaram.

Pensando no futuro

Com a adesão cada vez maior a aparelhos conectados, é essencial que se comece a pensar melhor nessas questões e exigir regulamentações governamentais que protejam os usuários, visando à transparência, a ética e a legalidade no uso dos dados pessoais.

Na Rússia, existe um aplicativo capaz de identificar qualquer estranho na rua com uma precisão de até 73%. Segundo os criadores, o app chamado FindFace tinha como objetivo inicial proteger a população, fornecendo às autoridades ferramentas para identificar criminosos na rua. Ao invés disso, acabaram colocando no mercado um produto que acaba fazendo o oposto da proposta inicial, expondo ainda mais as pessoas na rua.

Nesse contexto, as empresas devem pensar no conceito de “privacy by design”, ou privacidade desde a concepção em tradução livre. Assim, as opções de privacidade são asseguradas sem a necessidade de ajustes posteriores.

A sua empresa está preparada para essa nova realidade?

Ou, melhor, você está preparado para uma realidade em que sua privacidade – ou a falta dela – está em jogo?

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Monica de Lima
Monica de Lima

Relações Públicas focada em conteúdo. Leitora assídua de sites sobre comunicação, tecnologia e tendências, Mônica escreve sobre esses assuntos em seu blog Future Thinking 2050 e na sua página Future Thinking, divulgando artigos sobre tendências, tecnologia, comunicação e o mundo digital.

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