A VR pode mudar a percepção do tempo?


24 nov 2016

A percepção pessoal do tempo é uma das coisas mais curiosas do nosso cérebro.

De acordo com o neurocientista David Eagleman, do Baylor College of Medicine, o “tempo do cérebro” é subjetivo.

O sistema cerebral de registro da passagem do tempo é flexível e, embora não esteja exatamente claro, certamente leva em conta emoções, expectativas, o quanto as tarefas exigiram de você naquele período, e até mesmo a temperatura.

Um estudo sobre a realidade virtual (VR) reforçou que o tempo pode voar (aparentemente) quando você está ocupado. Também mostrou que o uso de símbolos do tempo (como o sol) pode alterar a percepção de uma pessoa.

Os resultados desse estudo podem, no curto prazo, dar aos desenvolvedores de VR, pistas importantes quando forem projetar jogos e programas de treinamento…

Em longo prazo, pode contribuir com desenvolvimento de novas tecnologias que possam ser úteis para “encurtar” a duração de um voo, preparar o ritmo circadiano para um jet-lag ou simplesmente prolongar uma experiência feliz, apenas citando alguns exemplos.

Símbolos do tempo

Muitas diferenças na percepção espaço-tempo entre ambientes virtuais imersivos e a realidade já foram identificadas, mas pouco se sabe sobre como ou por que elas ocorrem, especialmente quando se trata da percepção do tempo.

Assim, um grupo de pesquisadores da Universidade de Hamburgo na Alemanha realizou uma série de testes usando variáveis de “zeitgebers”, ou símbolos do tempo, como também usaram tarefas para medir com que precisão os participantes estimaram os minutos.

No experimento, 21 participantes foram convidados a usar um Oculus Rift com um cenário virtual de uma ilha tropical, e fazer uma dessas três coisas: simplesmente sentar na cadeira (a), realizar uma tarefa cognitiva verbal (b), ou executar uma tarefa cognitiva espacial (c).

Na tarefa verbal, as letras atravessaram a cena, e o participante tinha que assinalar quando uma letra correspondia às duas anteriores (por exemplo, ABCB).

Na tarefa espacial, os alunos viram objetos em bloco voando e foram solicitados a sinalizar quando um bloco correspondia ao anterior, independentemente da orientação.

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Tarefas experimentais: (a) cenário sem tarefa cognitiva (linha de base), (b) tarefa verbal de duas letras e (c) tarefa espacial cognitiva.  (Crédito: IEEE.org)

 

Os alunos realizaram essas tarefas (ou não-tarefas) sob três diferentes cenários, “usando o sol como o símbolo zeitgeber:

1 – Um sol que não se movimentava;

2- Um sol que movia-se num ciclo realístico de 24 horas;

3- Um sol que progredia ao dobro da velocidade real, que é de 24 horas.

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Ilustração de uma ilha virtual a partir da perspectiva do olho de um pássaro e o movimento do sol no mundo virtual escalado em três tempos gt∈ {0,1,2} (Crédito: IEEE.org)

 

Os resultados mostraram que quando a pessoa estava apenas sentada, sem nenhuma tarefa, a velocidade com que o sol se movia afetava muito a sua percepção do tempo, e ela tendia a superestimar o tempo que estava imersa na VR.

Mas, uma vez que as tarefas cognitivas foram introduzidas, o participante tendia a subestimar o tempo, e a manipulação do sol fez menos impacto, uma vez que ele não estava processando as configurações tão vividamente…

Isto foi especialmente verdadeiro para o teste de cognição espacial, provavelmente porque o participante precisava utilizar os recursos da mesma área do cérebro processando a passagem espacial do sol.

Os resultados confirmam aquilo que já sabemos: quando alguém está ocupado, imerso em um projeto de trabalho, o tempo voa, enquanto o tempo pode parecer se arrastar quando estamos descansando numa praia ou quando esperamos a água ferver numa chaleira.

Mas, o valioso desse estudo é saber que mesmo um sol virtual pode fazer diferença na forma como os seres humanos percebem o tempo…

Portanto, desenvolvedores de VR ao manipular pistas e tarefas podem ter efeitos semelhantes.

Nossa motivação com este estudo é lançar a pesquisa básica sobre a passagem do tempo na VR, e esta é apenas a ponta do iceberg”, Frank Steinicke, pesquisador.

Segundo Steinicke, hoje, os gamers podem adicionar zietgebers para ter efeitos especiais, mas não dão atenção científica para atingir um objetivo.

No futuro, os pesquisadores planejam estudar os efeitos de outros zeitgebers visuais e sensoriais – como um relógio, um sun-dial, ou mudanças de temperatura – e em diferentes tipos de configurações virtuais.

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Redação O Futuro das Coisas
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